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Otite externa no cão e no gato
Data: 27-04-2012

Uma otite é uma inflamação do canal auditivo que pode ser classificada como externa, média ou interna, dependendo da profundidade da afecção. O prognóstico e tratamento duma otite varia com esta classificação. Destas 3 a mais frequente é a externa e será esta a abordada neste tópico.

A otite externa corresponde à inflamação do canal auditivo externo e do tímpano e pode ser aguda ou crónica e uni ou bilateral. Esta patologia é um dos mais frequentes motivos de consulta na prática clínica e surge por um conjunto de factores:

- Factores predisponentes (forma do canal auditivo, posição da orelha, frequência dos banhos…)

- Factores primários (parasitoses, dermatites alérgicas,…);

- Factores secundários (bactérias e leveduras que são responsáveis pela inflamação da parede do canal auditivo);

- Factores perpetuantes (espessamento do canal auditivo, hiperplasia sebácea, calcificação do canal auditivo externo,…). 

Para se conseguir uma boa gestão duma otite externa é necessário identificar estes factores em cada animal em particular e tratar as causas de inflamação.

De acordo com alguns estudos sabe-se que algumas raças de cães e de gatos por diferentes motivos são predispostas a otites como por exemplo: Cocker, Caniche, Labrador Retriever, Pastor Alemão, Persa. Por este motivo, se o seu cão/gato é duma desta raças deve ter cuidados preventivos especiais e estar mais atento aos ouvidos do(o) seu(sua) companheiro(a) de quatro patas.

Duma forma geral, um cão ou um gato com otite manifesta prurido auricular e tenta coçar as orelhas com os membros e/ou tenta esfregá-las no chão ou nalgumas superfícies (muitas vezes na mão do dono). Associado a este prurido pode estar presente uma vocalização que reflecte desconforto ou mesmo dor. Por norma um animal com otite exala do(s) ouvido(s) um cheiro desagradável e apresenta corrimento auricular que varia de amarelo (pus) a castanho escuro/preto. Qualquer coloração de cerúmen diferente do amarelo/alaranjado deve sugerir alteração da ecologia normal do canal auditivo externo e, consequentemente, a presença duma otite. O diagnóstico de otite pressupõe sinais clínicos compatíveis e a realização duma citologia auricular na qual é possível identificar os organismos (bactérias, ácaros e leveduras) responsáveis pela inflamação do canal auditivo.

Como posso prevenir uma otite?

Está recomendada a limpeza auricular frequente em animais de raças consideradas predispostas ou em animais com historial de otite (mesmo que sejam de raças indeterminadas ou não predispostas). A frequência destas limpezas varia de animal para animal e deve ser indicada pelo seu médico veterinário. 

Nas limpezas auriculares deve utilizar produtos específicos para cães e gatos de modo a não interferir com as condições fisiológicas do canal auditivo.

Para prevenir o desenvolvimento de otites deve evitar alterações da humidade auricular e variações rápidas da temperatura, ou seja, antes de dar banho ao seu cão/gato deve aplicar-lhe um produto de limpeza auricular nos canais auditivos, evitar que entre água para essa zona e posteriormente realizar a limpeza dos ouvidos com algodão. Da mesma forma, assim que o seu cão chegue a casa depois de um mergulho no mar deve limpar-lhe os ouvidos com o produto indicado pelo seu médico veterinário. Os produtos otológicos de limpeza para os nossos animais têm propriedades secantes do canal auditivo de modo a reduzir a humidade existente.

Peça ao seu médico veterinário que lhe indique quais os produtos otológicos de limpeza mais adequados para o seu companheiro e que lhe exemplifique como fazer uma limpeza auricular correcta. 


Otites mais frequentes em cães e gatos

- Otite externa parasitária por Otodectes cynotis

Otodectes cynotisOtodectes cynotis

Figuras 1 e 2: Otodectes cynotis ao microscópio

Este tipo de otite que é causada por um ácaro (Otodectes cynotis) representa de 7 a 10% das otites nos cães e esta percentagem pode chegar aos 50% no caso dos gatos. Estas otites estão associadas a prurido intenso e é frequente os animais apresentarem feridas nas orelhas e restante região periauricular.

O tratamento destas otites é prolongado tendo em conta que o ciclo biológico do ácaro é de 3 semanas. O protocolo terapêutico deve ser instituído pelo seu médico veterinário e poderá incluir tratamentos locais (aplicação de medicamentos nos ouvidos) e a aplicação de outros produtos como pipetas com acção acaricida.


- Otite externa secundária a Dermatite alérgica

Os animais com alergias podem apresentar como sinal inicial os pavilhões auriculares eritematosos (vermelhos e quentes). Neste tipo de otite há alteração dos níveis de humidade e da temperatura do canal auditivo o que predispõe a inflamação e a colonização deste por bactérias e/ou leveduras.

O tratamento depende da citologia e deve ter-se sempre em conta a patologia subjacente e, neste caso em particular, as alergias devem ser controladas com a medicação ou gestão alimentar adequada de acordo com a prescrição/aconselhamento do seu médico veterinário.


- Otite externa por factores secundários

Existem alguns factores, nomeadamente bactérias e leveduras, que podem contribuir para o desenvolvimento duma otite num ouvido que apresenta anomalias. É importante salientar que tanto bactérias (Enterobacter spp., Staphylococcus spp.) como leveduras (Malassezia spp.) estão presentes no canal auditivo dum cão/gato saudável, fazendo parte da sua microflora cutânea. Contudo, qualquer alteração das condições fisiológicas do canal auditivo como humidade, alterações de temperatura, substância irritativas, entre outras, pode levar à sua multiplicação e consequentemente à desregulação da microflora do canal auditivo e desta forma complicar e inclusivamente impedir o tratamento das otites.

Malassezia spp.

Figura 3: Malassezia spp. ao microscópio

Na presença destes factores é importante fazer um tratamento específico para o organismo em questão. No mercado há alguns produtos de aplicação tópica direccionados para as leveduras e bactérias mas, no caso duma otite com componente bacteriana é importante realizar-se uma análise do cerúmen auditivo alterado para se identificar a bactéria em questão e para se determinar qual o antibiótico ideal que o seu cão/gato deverá fazer. Este procedimento é efectuado pelo seu veterinário.

Uma otite é um problema multifactorial e aí reside a dificuldade de tratamento a 100%. Há factores que não conseguimos corrigir (como o diâmetro dos canais auditivos) e muitos outros que contribuem para a complicação e perpetuação dos sinais clínicos de otite. Contudo, deve ser feito um esforço contínuo de modo a prevenir e mesmo a evitar a existência e recorrência de otites.

Se suspeita que o seu cão/gato tem uma otite leve-o ao seu veterinário para que ele lhe faça uma avaliação diagnóstica completa e lhe estabeleça o protocolo de tratamento e prevenção mais adequado. Não trate o seu cão em casa sem aconselhamento do seu médico veterinário. O uso de produtos não indicados pode contribuir para a evolução da doença e dificultar e prolongar o tratamento adequado.

Uma otite externa pode evoluir em profundidade para uma otite média-interna em que há perfuração da membrana timpânica. A aplicação de produtos otológicos em ouvidos com um tímpano ruturado está associada ao desenvolvimento de sinais neurológicos e outras alterações de variados graus. Deste modo, antes de iniciar o tratamento duma otite o seu cão/gato deve ser observado por um médico veterinário, mesmo que se trate duma recidiva.

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